'Atrofia' | Petrolina vira cenário de série de ficção científica

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'Atrofia' | Petrolina vira cenário de série de ficção científica

 

Contrariando o pensamento hegemônico que sempre acreditou que a humanidade caminharia de modo etapista para o progresso, em uma evolução contínua e uniforme, a série Atrofia aposta no conflito. Com conceito, estilo e arte, Atrofia tem o poder de te fazer olhar para o mundo ao seu redor, mas mais importante do que isso, é capaz de te fazer mergulhar em você mesmo.

 

Abrangendo oito episódios independentes com produção da WW Filmes e direção de Geisla Fernandes e Wllyssys Wolfgang, ambos premiados em espaço nacional e internacional, a série retrata a luta pela sobrevivência num mundo em que uma síndrome desconhecida é responsável por atrofiar 80% da população mundial.

 

Não conhecemos a origem da epidemia, nem o seu comportamento, mas seus principais sinais são o ódio e a violência gratuita. É nesse contexto que Bia (Cíntia Lima)¹, a protagonista, se encontra: Enfrentando contínuos ataques de violência desenfreada de seres humanos animalizados, famintos e sem capacidade de empatia, uma vez que, por conta dos altos níveis de cortisol, sofreram com queda de cabelo, vermelhidão nos olhos, ausência de racionalidade e perda total de sentidos como o paladar, o tato, o olfato e a movimentação dos membros superiores.

 

Embora sejam semelhantes aos zumbis, os atrofiados não estão mortos. Ao contrário, são seres humanos vivos que também lutam pela sua sobrevivência, mas sem recursos, submetem-se a saciar sua fome comendo qualquer coisa que esteja disponível, desde carniças até outros seres humanos.

 

Essas características trazem a tona uma reflexão crítica sobre os modos de vida na sociedade contemporânea. O paralelo entre a síndrome e a violência pode ser estabelecido com o que Hannah Arendt, filósofa alemã, chamou de banalidade do mal em seu livro “Eichmann em Jerusalém”, quando analisa um dos principais organizadores do Holocausto nazista.

 

Ao invés de depositar sua explicação teórica com base em patologias ou religiosidade, a autora parte do pressuposto de que a maldade seja construída aos poucos, por influência do contexto social e histórico, do círculo de pessoas e pela ausência de crítica.

 

Nesse sentido, longe de demonizar as atitudes dos nazistas como meramente monstruosas ou de julgar seus praticantes como monstros, afirma que o mal se torna banal quando as condições para o pensamento se esvaziam. Tais condições seriam propícias em regimes totalitários e autoritários, mas também na presença de líderes carismáticos, em que o sentimento de pertencimento e o desejo de desresponsabilização pelos próprios atos pudesse fazer com que as pessoas deixassem de se comprometer com os efeitos de suas ações. Assim, as massas seriam agentes executores e a responsabilidade de suas condutas seria externa a elas.

 

Nessa perspectiva, o mal seria parte da estrutura organizacional da sociedade, ordenada em um arranjo que oferece condições para a sua disseminação. Dessa forma, o contexto social seria como uma grande pista de dança que convida a violência para dançar sob os holofotes e ao som de aplausos e aclamações.

 

Portanto, não é apenas sobre o mal no outro, mas também sobre o mal em você, em mim e em todo lugar, sendo parte de um sistema de tecnificação e burocratização de obrigações massificadas sobre as pessoas.

 

Nas palavras de Hannah Arendt: “A minha opinião é de que o mal nunca é radical. É apenas extremo e não possui profundidade nem qualquer dimensão demoníaca. Ele pode cobrir e deteriorar o mundo inteiro precisamente porque se espalha como um fungo na superfície. Essa é sua banalidade. Apenas o bem tem profundidade e pode ser radical”.

 

 

CARCARÁ: PEGA, MATA E COME!

 

Repleta de sensibilidade, a proposta de utilizar a imagem de um carcará no teaser do piloto da série remete a uma grande questão social. De modo muito simbólico e representativo, a figura do carcará, em um primeiro momento, pode ser associada à condição das pessoas que sofrem com a atrofia. Também conhecida como “limpa-estradas”, a ave de rapina possui alimentação diversa, sendo capaz de comer qualquer coisa que esteja em seu caminho para saciar a sua fome, desde insetos até carcaças e lixo produzido por humanos. O mesmo acontece em Atrofia: desesperados por alimentação, os atrofiados recorrem a quaisquer meios para sanar suas necessidades.

 

Em um segundo momento, tendo em vista todo esse contexto, a presença do carcará também remete à canção que recebe o mesmo nome do animal: “Carcará”, de João do Vale e de José Cândido, apresentada no show “Opinião”, produzido em 1964, no Rio de janeiro, em plena ditadura civil-militar.

 

Passando por interpretes como João do Vale e Chico Buarque, Zé Ramalho, Maria Bethânia, Elba Ramalho e pelo grupo Barbatuques, a música trata da difícil realidade vivida pelos nordestinos em meados do século XX. Em tom dramático, dados estatísticos retirados de um relatório da SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) denunciava a fome, a migração e os desafios cotidianos desse povo: "Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí! Mais de 15% da Bahia!! 17% de Alagoas!”.

 

Trecho da música “Carcará”
Composição: João do Vale

 

Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome.

 

O tema da fome ainda é uma realidade e representa uma grande preocupação para o Brasil e para o mundo.

Embora o Brasil tenha saído do mapa da fome em 2014, com a situação crescente de desemprego e com a adoção de políticas austeras, as chances de retornarmos para ele são muito grandes.

 

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), houve um aumento no número de pessoas passando fome no mundo, que subiu de 815 milhões de pessoas, em 2016, para quase 821 milhões em 2017.

 

Na América Latina e Caribe, são mais de 39 milhões de indivíduos nessa situação, enquanto que no Brasil somamos 5,2 milhões.

Por essa razão, é necessário cuidado quanto à felicidade de estar fora do mapa da fome, pois o mesmo abarca apenas os países que contam com mais de 5% da população ingerindo menos calorias do que o recomendável.

 

Nesse sentido, para estarmos no mapa, seria necessário que pelo menos 10 milhões e 500 mil brasileiros estivessem em situação de fome, uma vez que temos, aproximadamente, 208 milhões e 500 mil habitantes no país.

 

 

UMA SÉRIE PRODUZIDA INTEGRALMENTE NA CAATINGA: ÚNICO BIOMA EXCLUSIVAMENTE BRASILEIRO.

 

Por coincidência ou não, a série é produzida 100% na Caatinga, bioma que cobre cerca de 11% do território nacional e está concentrado quase que integralmente no nordeste, de modo que 98% de sua extensão está nessa região geográfica, enquanto que os outros 2% ficam em Minas Gerais.

 

Vale a pena chamar a atenção para a estética da série e para a direção de fotografia, que com muito cuidado, conseguiu imprimir o nome do bioma em toda a identidade de cores no trabalho. Do tupi-guarani, Caatinga quer dizer “mata branca” e em cada detalhe do seriado é possível perceber tons esbranquiçados e acinzentados, conferindo ao mesmo tempo um aspecto de solidez e sutileza para o ambiente, quanto o sentido de solidão e isolamento para a protagonista, uma das poucas pessoas não afetadas pela síndrome.

 

A escolha da ambientação também é perfeita para o enriquecimento do enredo. Caracterizada por uma vegetação preparada para enfrentar longos períodos de seca, a maioria das plantas perde as folhas e os troncos tornam-se esbranquiçados e secos, concedendo um aspecto retorcido para a ambiência. Tais características remetem ao trabalho de corpo dos humanos atingidos pela atrofia.

 

CORPO, BUTOH E VERDADE.

 

Ademais, trabalho de corpo é o que não falta. O elenco conta com bailarinos que trabalharam a profundidade expressiva dos movimentos dos personagens com atrofia pautados em pesquisa e experimentação da dança Butoh.

 

Butoh é um estilo artístico filosófico surgido no Japão após a Segunda Guerra Mundial como resposta de resistência após o bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki. Conhecido como “dança das trevas” por arrancar as máscaras sociais, explorar o que está oculto e o não explorado, o Butoh se interessa em explorar a individualidade dos sujeitos.

 

Uma dança visceral: a filosofia do movimento artístico acredita que é capaz de expressar o que o ser humano tem de verdade em sua alma, mesmo que essa verdade não tenha nada de bonito ou certo, segundo os preceitos e normas sociais.

 

Sendo assim, trazer Butoh para o corpo da atrofia expressa o desejo de trabalhar a verdade da violência, da fome, da individualidade, da competitividade e da luta, provocando uma reflexão sobre a realidade social e alertando para um futuro que pode não ser tão distópico assim.

 

Nota:

[1] Importante destacar que o trabalho não só foi desenvolvido no nordeste, como também integrou os nordestinos em todo o processo de criação, de modo que 90% da equipe foi composta por pessoas naturais da região. As mulheres também tiveram papel central, sendo que a equipe foi constituída majoritariamente por elas (60%). Ainda vale dizer que, inclusive, a protagonista da série é uma mulher negra e nordestina! Além disso, a aposta em abrir seleção tanto para pessoas cisgêneras quanto para pessoas transgêneras mostra o compromisso ético e social dos idealizadores com a inclusão e visibilidade de grupos historicamente marginalizados.

 

 

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